
Vivi em Paris por dez anos, fui ainda adolescente. Estudei, me formei e decidi voltar ao Brasil, por isso queria falar aqui de coisas menos ébvias sobre Paris, como sentir o ar da cidade tal como os Parisienses fazem tão bem.

Pois é, os nossos amigos franceses da capital têm hábitos muito distintos. Eles são previsíveis e ao mesmo tempo fantasticamente surpreendentes. Todo parisiense que se preze tem a sua tribo e o seu estilo, lançando as tendências mais variadas, do jeito de se vestir ao local onde sair. Cresci num estilo meio boêmio, meio a la vadrouille como dizem os franceses, sempre buscando algo novo, eclética. Não me prendia a rótulos ou grupos, gostava de explorar. A dica que vai hoje é justamente de um dia parisiense, um pouco fora dos típicos padrões do turista sedento de monumentos e fotos souvenir.

Começar um dia em Paris é tomar um café no “zinc” (em pé no bar do café) e comer um croissant. Na verdade não existe um café especifico onde você possa começar o dia. Simplesmente escolha um, perto do seu hotel, albergue, apartamento, encoste-se no bar e peça seu café. Cafezinho na verdade, forte, acompanhado sempre por um copinho d’água. Seu croissant? Escolha uma boulangerie no seu trajeto e vá degustando enquanto caminha. Isso é o parisiense. Um cafezinho rapidinho, pra esquentar o começo do dia e opa, para não perder tempo, vai caminhando e mordendo o pãozinho de sua preferência.

Para aproveitar o dia sugiro um bairro que é a cara dos parisienses: do hype ao underground, tudo reunido num perímetro mágico, o bairro do Marais. Le Marais é muito conhecido por ser o bairro gayfriendly… Na verdade, a comunidade gay de Paris conseguiu transformar o bairro num dos centros mais diversificados da cidade, reunindo desde museus tradicionais, a lojas conceituais, galerias de artes, mercados públicos com variedades internacionais, feiras de antiguidades, restaurantes, cafés, lounges e por ai vai. É um bairro intenso, que vive 24horas por dia, todos os 365 dias do ano.

Com o metrô se chega lá rapidinho, linha 1, estação com o mesmo nome (St. Paul – Le Marais) e de cara, você sai numa praça com 5 cafés, duas boulangeries e um mundo de gente. Perca-se pelas ruas. Deixe-se levar pelo fluxo. Aos domingos as ruas internas do bairro ficam fechadas para os carros.
Um lugar muito bom para se visitar é o Museu Carnavalet. Situado no 23, Rue de Sévigné (fechado às segundas). É o museu da historia de Paris. Lugar incrível, com jardim interno e um acervo fantástico sobre a cidade desde a sua fundação, até períodos mais sangrentos como a Revolução e a Queda da Bastilha, passando também pela Paris romântica e a formação moderna.

Se bater aquela fome, sugiro uma volta pelo Marché des Enfants Rouges, no 39 Rue de Bretagne, pertinho da estação de metro Filles du Calvaire. De terça a sábado o mercado coberto e seus vinte e poucos stands ficam recheados de gastronomia. Do japonês tradicional, passando pelo bistrot francês, ao cuscuz marroquino, delicie-se com odores, cores e pessoas. Vive cheio, mas é uma beleza!
Depois do almoço, vale a pena dar uma esticada pela Rue de Bretagne, flanar e aproveitar para descobrir lojas de design, decoração e até mesmo de fotografia. Se você estiver com sorte, pode até cair num dia de Brocante, feirinha de antiguidades organizada nas calçadas do bairro.

Para fechar à tarde como se deve, cruze a ponte e pare no meio do rio Sena, isso mesmo, no meio, na Île Saint-Louis, pedacinho mágico de Paris que parece ter parado no tempo. Dê uma volta, va até as margens do rio. Sente. Tire fotos. No verão vale até fazer pic-nic. No inverno, dê uma fugida do frio, sentando-se para tomar um bom chocolate quente, alias o melhor que já tomei em Paris até hoje! O endereço certo? A Charlotte de L’Isle que fica no 24, Rue Saint-Louis em Lisle (de quarta a domingo a partir das 11h). É um cantinho fofo, cheio de bonecos em cerâmica e papel maché, bules empilhados, o cheirinho de chocolate artesanal saindo da cozinha… Parece que estamos em pleno chá da Alice no Pais das Maravilhas!

Não deixe de sair de l’Ile Saint-Louis passando pela ponte Saint-Louis. Além daquela foto linda com pontes de Paris no horizonte, você ainda sai de cara com os jardins de Notre-Dame. Daí, que sabe partir para uma noitada no Quartier-Latin? Mas ai já é assunto para outro lote de dicas, né?
